13 de abril de 2022


 

3 de dezembro de 2021

(54)

 184.



Sou uma prateleira de frascos vazios.







LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

1 de dezembro de 2021

(55)

 PERISTILO


Às horas em que a paisagem é uma auréola de Vida, e o sonho é apenas sonhar-se, eu ergui, ó meu amor, no silêncio do meu desassossego, este livro estranho como portões abertos numa casa abandonada. 

Colhi para escrevê-lo a alma de todas as flores, e dos momentos efêmeros de todos os cantos de todas as aves, teci eternidade e estagnação. Tecedeira, sentei-me à janela da minha vida e esqueci que habitava e era, tecendo lençóis para o meu tédio amortalhar nas toalhas de linho casto para os altares do meu silêncio, e eu ofereço-te este livro porque sei que ele é belo e inútil. Nada ensina, nada faz crer, nada faz sentir. Regato que corre para um abismo-cinza que o vento espalha e nem fecunda nem é daninho – pus toda a alma em fazê-lo, mas não pensei nele, mas só em mim que sou triste e em ti que não és ninguém.

E porque este livro é absurdo, eu o amo; porque é inútil, eu o quero dar; e porque de nada serve querer te dar, eu te dou...

Reza por mim ao lê-lo, abençoa-me por amá-lo e esquece-o como o Sol de hoje ao Sol de ontem.

Torre do Silêncio das minhas ânsias, que este livro seja o luar que te fez na noite do Mistério Antigo!

Rio de Imperfeição dolorida, que este livro seja o barco deixado ir pelas tuas águas abaixo para acabar mar que se sonhe.

Paisagem de Alheamento e de Abandono, que este livro seja teu como a tua Hora e se limite de ti como da Hora de púrpura falsa.



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa


28 de novembro de 2021

(56)

 63.



Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.

Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?

Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.

É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.

 Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém.

Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.

Releio, sim, estas páginas que representam horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes esperanças desviadas para a paisagem, mágoas como quartos onde se não entra, certas vozes, um grande cansaço, o evangelho por escrever.

Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...

Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada…



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa


23 de novembro de 2021

(57)

 NOSSA SENHORA DO SILÊNCIO




Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ler mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos,

encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as dagrutas dos meus desassossegos.


Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um sonho que eu sonhe?


Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? O teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque sei, ainda que não saiba que o sei. O teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?


A minha vida é tão triste, e eu nem penso em chorá-la; as minhas horas tão falsas, e eu nem sonho o gesto de parti-las. Como não te sonhar? Como não te sonhar?




LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa



(58)

 Nossa senhora do silêncio, rogai por nós.

22 de novembro de 2021

(59)

 167.


Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só na nossa alma está a identidade — a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma — pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir — não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer — aldeia ou ermo — que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico.

Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.


A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade — que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a — é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento’, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo? Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam? Eu mesmo, que anseio alto pelo sol puro e os campos livres, pelo mar visível e o horizonte inteiro, quem me diz que não estranharia a cama, ou a comida, ou não ter que descer os oito lanços de escada até à rua, ou não entrar na tabacaria da esquina, ou não trocar os bons-dias com o barbeiro ocioso?

Tudo que nos cerca se torna parte de nós, se nos infiltra na sensação da carne e da vida, e, baba da grande Aranha, nos liga subtilmente ao que está perto, enleando-nos num leito leve de morte lenta, onde baloiçamos ao vento.

Tudo é nós, e nós somos tudo; mas de que serve isto, se tudo é nada?

Um raio de sol, uma nuvem que a sombra súbita diz que passa, uma brisa que se ergue, o silêncio que se segue quando ela cessa, um rosto ou outro, algumas vozes, o riso casual entre elas que falam, e depois a noite onde emergem sem sentido os hieróglifos quebrados das estrelas.



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

30 de outubro de 2021

(60)

 42.


Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa 

28 de outubro de 2021

(61)

 102.


Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? 



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

24 de outubro de 2021

(62)

 100.


Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto.



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

20 de outubro de 2021

(63)

 48.


Para compreender, destruí-me.

Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreende-la.


A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.



LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

16 de outubro de 2021

(64)

 262.


Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar .


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

15 de outubro de 2021

(65)

47.


No desalinho triste das minhas emoções confusas...

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações — áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

3 de outubro de 2021

(66)

 62. 


Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

14 de setembro de 2021

(67)

 115.


Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase  que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

13 de setembro de 2021

(68)

430.


Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

8 de setembro de 2021

(69)

49.


O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança. A presença de outra pessoa — de uma só pessoa que seja — atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o contacto com outrem é um estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contacto é um contraestímulo, se é que esta palavra composta é viável perante a linguagem. 

Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono. Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir. Só os meus amigos espectrais e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em sonho, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é presente como uma imagem num espelho.

Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contacto com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de definir. A ideia de uma obrigação social qualquer — ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida -, só essa ideia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente  insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa

24 de agosto de 2021

(70)


Cansaço de ser sempre eu, insuportável consciência da miséria que sou, o fado, a mácula, o horror, um ser sempre cinza, amorfo, sem luz e sem cor.

(71)

68.


O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.

A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem das suas secreções.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa


(72)

Outra vez tenho o livro do desassossego na cabeceira da cama.

11 de agosto de 2021

(73)


Silencie-se ao máximo até que o teu silêncio seja audível

Identifique o silêncio que te significa

Nomeia o teu silêncio, mas fecha os olhos para enxergar-lhe o rosto

Lambe o teu silêncio até que ele sussurre

Morde o teu silêncio até que ele grite

Dorme com teu silêncio ao lado, para criar intimidade

Alimenta o teu silêncio com palavras, mas espere a digestão com paciência

Dança com teu silêncio ao som da tua respiração

Respira o teu silêncio até que ele preencha os pulmões

Fuma o teu silêncio na seda da epifania

Então senta, e escreve o teu silêncio.


Hudson Pereira - Manifesto do incorpóreo, intáctil, intangível

26 de julho de 2021

23 de julho de 2021

(75)

 

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,

Não achas, soprando por tanta solidão,

Deserto, penhasco, coval mais vazio

Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano

Faz louco lugar, caverna sem fim,

Não são tão deixados do alegre e do humano

Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,

Só têm a tristeza que a gente lhes vê

E nisto que em mim é vácuo e tristeza

É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!

Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,

Que rasgas os robles — teu pulso divida

Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,

A alma que tenho pudesses levar -

Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia

De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,

Mar torvo do caos que parece volver -

Porque é que não entras no meu penssamento

Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!

Horror de sentir a alma sempre a pensar!

Arranca-me, é vento; do chão da existência,

De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,

Pelo caos furioso que crias no mundo,

Dissolve em areia esta minha amargura,

Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,

Telhados daqueles que têm razão,

Atira, já pária desfeito dos ares,

O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,

Tornado a substância dispersa e negada

Do vento sem forma, da noite sem termo,

Do abismo e do nada!


                Vendaval - Fernando Pessoa

17 de julho de 2021

(76)


 

13 de julho de 2021

(77)


Susano Correia



7 de julho de 2021

(78)

Quisera tanto que durasse

qualquer desejo em qualquer dia

que mesmo sendo em demasia

eu deles nunca me fartasse;

assim enquanto não houvesse

nada mais que vos sugerisse

então que a vida ressurgisse

e só desejos refizesse;

porque deixei vossa verdade

ó coisas já feitas de espera

quando sempre tudo soubera

tão cheio de realidade;

pois bem sei que ando consumida

mas por desejos que são vida.


Maria Lúcia Alvim 


6 de julho de 2021

(79)

Na amplitude acertada de teus escritos 

extraio a pertinência necessária ao meu viver.

Tanto que tua pena me risca alma, 

quanto ultrapassa compreender.

Na solidão veloz das longas horas, 

a pólvora amiga do pensamento.

No embalar dos dias e das noites 

no gozo, delírios de tormento.


À Clarice Lispector





5 de julho de 2021

(80)

 Um filho não deveria

ser feito

para cumprir mandamentos, para

povoar

a solidária solidão de pares amorosos, improvisados e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido

seria para

provar apenas isto: 

a matéria ou

mistério

ou vida

desafiando o pensamento.


Maria Lúcia Alvim 

3 de julho de 2021

(81)

 Abstenho-me da escrita por não dispor inspiração.

Nenhum estalido de beijo ou cintilar de estrelas, nenhum perfume que me faça despertar as palavras.

Olhos e ouvidos cerrados: Injúrias a realidade.

Atônitos pensamentos se despontam me apontam e desapontam: 

Não sei discorrer sobre a razão.

Lampejos de realidade ofuscam-me os sentidos. 

Envolta num véu factual, fatídico, caminho às escuras.

Como um moinho que carece de vento para volver 

tenho as engrenagens endurecidas,

 corroídas pela veracidade dos fatos.

Pelejando pra emoldurar na ferrugem do ontem a inconsistência do amanha.

Outrora rastejei migalhas de inspiração.

Hoje meu contento é digerir na mudez,

 solitude, solidez e solidão.

(82)

 O apego é a fissura que permite as raízes irem mais fundo do que deveriam.

(83)

7 anos depois,

29 de maio de 2014

(84)


12 de maio de 2014

(85)


"A arte existe para que a verdade não nos destrua".

(Friedrich Nietzsche)

30 de dezembro de 2012

(86)


Lamentável, ser em vão.
Me apregoem escritos sobre a gênese dos desejos, quem sabe acredito. 



19 de junho de 2012

(87)


A gente finge que é. Finge. Finge. Acredita e passa a ser. Cada certeza representa um muro branco. Muro porque impede e branco porque não absorve. Uma fresta. Uma fresta olhando para você. Para e se espia? Ou segue e se descobre? A infinidade, a enfermidade, de vez em vez, acaba que se salva um. São tantas estrelas no céu. Por que será? O problema, é que nos dias de hoje, pensar, cansa.

13 de junho de 2012

(88)


“Um urubu posou na minha sorte”. Pensei quão interessante seria uma fotografia deste momento. Sob as folhas buritiranas de um céu azul, escaldante e tenso. De repente, uma nuvem. Veio vindo, se arrastando... e parou. Um pássaro lindo voou sob ela, lindo de doer os dentes e a alma. Voltei-me para cima e olhei. Com a mão tapando a quentura do calor nos olhos. Esperem, é preto. Um urubu posou na minha sorte.


Em agradecimento á Augusto,
Augusto do Anjos, in "Eu"

Tome, Dr., esta tesoura, e ...corte minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração, depois da morte? Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esbroa ao contato de bronca destra forte! Dissolva- se, portanto, minha vida igualmente a uma célula caída na aberração de um óvulo infecundo; mas o agregado abstrato das saudades fique batendo nas perpétuas grades do último verso que eu fizer no mundo!

12 de junho de 2012

(89)


Nada mais relaxante que um chocolate lambuzando as palavras de Friedrich, humano, pobre demasiado. Fascinante contrastar certas amarguras com um prazer que só a culinária proporciona.

(90)


















Fernando Pessoa, in "Poesias de Álvaro de Campos"

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos.

5 de maio de 2012

(91)


Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "esta vida, assim como tua avives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência- e do mesmo modo essa aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes"" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou, então, com terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?



18 de abril de 2012

(92)


Milan Kundera, in
"A Insustentável Leveza do Ser"

O que é vertigem?
Medo de cair?

Mas porque temos vertigem num mirante
cercado por uma balaustra sólida?

Vertigem não é o medo de cair,
é outra coisa.


É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrae e nos envolve,
é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados
.

18 de março de 2012

13 de março de 2012

(94)

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desassossego"

O coração, se pudesse pensar, pararia.

25 de janeiro de 2012

(95)

Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.
Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.

Raul Pompéia, O Ateneu

21 de dezembro de 2011

(96)

Chegou a minha porta em plena manhã de domingo, barba por fazer, cabelo despentedo. E me encontrou igualmente despenteada, com as mãos e o pijama sujos de barro. Não disse nada. E como uma haste cravada no chão a qual se segura uma planta noviça para que não se vergue, me fez lembrar quem eu sou... todo prazer contido, na existência.

31 de outubro de 2011

(97)

Sobre tanta superficialidade, as vezes penso como um poeta. Que por destinado a sofrer, o sofrimento que já não lhe doe, clareia a visão. Queria ser como Vinícius, saber das castas e impuras coisas da vida, respeita-las tão certa como elas vão acontecer. Os extremos inatingíveis estão na esquina, pisando terra e céu sem bem saber onde vão meus pés.