19 de junho de 2012

(87)


A gente finge que é. Finge. Finge. Acredita e passa a ser. Cada certeza representa um muro branco. Muro porque impede e branco porque não absorve. Uma fresta. Uma fresta olhando para você. Para e se espia? Ou segue e se descobre? A infinidade, a enfermidade, de vez em vez, acaba que se salva um. São tantas estrelas no céu. Por que será? O problema, é que nos dias de hoje, pensar, cansa.

13 de junho de 2012

(88)


“Um urubu posou na minha sorte”. Pensei quão interessante seria uma fotografia deste momento. Sob as folhas buritiranas de um céu azul, escaldante e tenso. De repente, uma nuvem. Veio vindo, se arrastando... e parou. Um pássaro lindo voou sob ela, lindo de doer os dentes e a alma. Voltei-me para cima e olhei. Com a mão tapando a quentura do calor nos olhos. Esperem, é preto. Um urubu posou na minha sorte.


Em agradecimento á Augusto,
Augusto do Anjos, in "Eu"

Tome, Dr., esta tesoura, e ...corte minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração, depois da morte? Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esbroa ao contato de bronca destra forte! Dissolva- se, portanto, minha vida igualmente a uma célula caída na aberração de um óvulo infecundo; mas o agregado abstrato das saudades fique batendo nas perpétuas grades do último verso que eu fizer no mundo!

12 de junho de 2012

(89)


Nada mais relaxante que um chocolate lambuzando as palavras de Friedrich, humano, pobre demasiado. Fascinante contrastar certas amarguras com um prazer que só a culinária proporciona.

(90)


















Fernando Pessoa, in "Poesias de Álvaro de Campos"

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos.