23 de julho de 2021
(75)
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu penssamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
Vendaval - Fernando Pessoa
13 de julho de 2021
7 de julho de 2021
(78)
Quisera tanto que durasse
qualquer desejo em qualquer dia
que mesmo sendo em demasia
eu deles nunca me fartasse;
assim enquanto não houvesse
nada mais que vos sugerisse
então que a vida ressurgisse
e só desejos refizesse;
porque deixei vossa verdade
ó coisas já feitas de espera
quando sempre tudo soubera
tão cheio de realidade;
pois bem sei que ando consumida
mas por desejos que são vida.
Maria Lúcia Alvim
6 de julho de 2021
(79)
Na amplitude acertada de teus escritos
extraio a pertinência necessária ao meu viver.
Tanto que tua pena me risca alma,
quanto ultrapassa compreender.
Na solidão veloz das longas horas,
a pólvora amiga do pensamento.
No embalar dos dias e das noites
no gozo, delírios de tormento.
À Clarice Lispector
5 de julho de 2021
3 de julho de 2021
(81)
Abstenho-me da escrita por não dispor inspiração.
Nenhum estalido de beijo ou cintilar de estrelas, nenhum perfume que me faça despertar as palavras.
Olhos e ouvidos cerrados: Injúrias a realidade.
Atônitos pensamentos se despontam me apontam e desapontam:
Não sei discorrer sobre a razão.
Lampejos de realidade ofuscam-me os sentidos.
Envolta num véu factual, fatídico, caminho às escuras.
Como um moinho que carece de vento para volver
tenho as engrenagens endurecidas,
corroídas pela veracidade dos fatos.
Pelejando pra emoldurar na ferrugem do ontem a inconsistência do amanha.
Outrora rastejei migalhas de inspiração.
Hoje meu contento é digerir na mudez,
solitude, solidez e solidão.

