24 de agosto de 2021

(70)


Cansaço de ser sempre eu, insuportável consciência da miséria que sou, o fado, a mácula, o horror, um ser sempre cinza, amorfo, sem luz e sem cor.

(71)

68.


O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.

A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem das suas secreções.


LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa


(72)

Outra vez tenho o livro do desassossego na cabeceira da cama.

11 de agosto de 2021

(73)


Silencie-se ao máximo até que o teu silêncio seja audível

Identifique o silêncio que te significa

Nomeia o teu silêncio, mas fecha os olhos para enxergar-lhe o rosto

Lambe o teu silêncio até que ele sussurre

Morde o teu silêncio até que ele grite

Dorme com teu silêncio ao lado, para criar intimidade

Alimenta o teu silêncio com palavras, mas espere a digestão com paciência

Dança com teu silêncio ao som da tua respiração

Respira o teu silêncio até que ele preencha os pulmões

Fuma o teu silêncio na seda da epifania

Então senta, e escreve o teu silêncio.


Hudson Pereira - Manifesto do incorpóreo, intáctil, intangível