30 de dezembro de 2012

(86)


Lamentável, ser em vão.
Me apregoem escritos sobre a gênese dos desejos, quem sabe acredito. 



19 de junho de 2012

(87)


A gente finge que é. Finge. Finge. Acredita e passa a ser. Cada certeza representa um muro branco. Muro porque impede e branco porque não absorve. Uma fresta. Uma fresta olhando para você. Para e se espia? Ou segue e se descobre? A infinidade, a enfermidade, de vez em vez, acaba que se salva um. São tantas estrelas no céu. Por que será? O problema, é que nos dias de hoje, pensar, cansa.

13 de junho de 2012

(88)


“Um urubu posou na minha sorte”. Pensei quão interessante seria uma fotografia deste momento. Sob as folhas buritiranas de um céu azul, escaldante e tenso. De repente, uma nuvem. Veio vindo, se arrastando... e parou. Um pássaro lindo voou sob ela, lindo de doer os dentes e a alma. Voltei-me para cima e olhei. Com a mão tapando a quentura do calor nos olhos. Esperem, é preto. Um urubu posou na minha sorte.


Em agradecimento á Augusto,
Augusto do Anjos, in "Eu"

Tome, Dr., esta tesoura, e ...corte minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração, depois da morte? Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esbroa ao contato de bronca destra forte! Dissolva- se, portanto, minha vida igualmente a uma célula caída na aberração de um óvulo infecundo; mas o agregado abstrato das saudades fique batendo nas perpétuas grades do último verso que eu fizer no mundo!

12 de junho de 2012

(89)


Nada mais relaxante que um chocolate lambuzando as palavras de Friedrich, humano, pobre demasiado. Fascinante contrastar certas amarguras com um prazer que só a culinária proporciona.

(90)


















Fernando Pessoa, in "Poesias de Álvaro de Campos"

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos.

5 de maio de 2012

(91)


Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "esta vida, assim como tua avives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência- e do mesmo modo essa aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes"" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou, então, com terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?



18 de abril de 2012

(92)


Milan Kundera, in
"A Insustentável Leveza do Ser"

O que é vertigem?
Medo de cair?

Mas porque temos vertigem num mirante
cercado por uma balaustra sólida?

Vertigem não é o medo de cair,
é outra coisa.


É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrae e nos envolve,
é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados
.

18 de março de 2012

13 de março de 2012

(94)

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desassossego"

O coração, se pudesse pensar, pararia.

25 de janeiro de 2012

(95)

Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.
Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.

Raul Pompéia, O Ateneu