10 de março de 2011

A delícia e tristeza de se estar só...


(...) Que sei eu do que serei,
eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos [...].

O mundo é para quem nasce para o conquistar, e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo;
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, e ouviu a voz de Deus num poço tapado [...].

Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente:
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
e o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha [...].

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido [...].


Tabacaria
Fernando Pessoa